Observatório do Hip-Hop

Quando a favela deixa de ser objeto e passa a ser sujeito!

Quarto de despejo (Diário de uma Favelada)

Publicado por Roberta Federico em 1 Janeiro, 2008

Este é o título do livro que li nos últimos dias e me pôs a pensar sobre como as coisas levam tempo para mudar no Brasil. O livro é um diário que Carolina Maria de Jesus escreveu, durante a década de 50, enquanto residia na Favela do Canindé (SP).  Se fôssemos tranpôr para os dias atuais seria um blog que foi publicado impresso.

Em 2007 recebemos umas doações de livros e eu li alguns deles. Fiquei surpresa quando encontrei esse livro, pois já haviam me falado sobre ele. Mais surpresa ainda quando vi que estava autografado (a Euricles Alcantara, no 1º Festival do Rio em 1960) e dentro tinha um recorte de jornal da época com uma coluna de um crítico preconceituoso e racista, um tal de Henrique Pongetti… As pessoas são incapazes de referenciar-se a alguém sem dizer, antes de mais nada, que era uma preta favelada. Não que isso fosse motivo de vergonha, mas as pessoas são mais do que seu exterior mostra.

A mulher teve uma vida terrível, como muitos outros brasileiros. Todos os dias catava papéis e metais para vender e poder comprar um quilo de feijão para dividir com 3 filhos. Em dia de chuva ou quando ela adoecia, ia pedir ossos no açougue para poder fazer sopa. Ou então revirava o lixo à procura de algo para comer. Confesso que depois de ler o livro fiquei repensando o valor de ter o que comer todos os dias. E revoltei-me quando pensei que ainda hoje as pessoas vivem nessas condições. Cinqüenta anos depois do livro escrito, não mudou muita coisa.

Entre o céu e o inferno cotidianos, Carolina era capaz de ver beleza na vida e sempre era puxada pela dura realidade.

“Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para êles. (…)

Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. Comecei sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida? Parece que quando eu nasci o destino marcou-me para passar fome. Catei um saco de papel. Ia catando tudo o que encontrava. Ferro, lata, carvão, tudo serve para o favelado. O Leon pagou o papel, recebi seis cruzeiros. Pensei guardar o dinheiro para comprar feijão. Mas, vi que não podia podia porque o meu estômago reclamava e torturava-me. Resolvi tomar uma média e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.”

Este livro de Carolina Maria de Jesus foi traduzido para mais 14 idiomas e foi um fenômeno na época da publicação (1960). A contradição: no dia do lançamento do livro ela teve que catar papel para ter o que comer. Esse é o nosso Brasil… Essa mulher foi uma heroína, devia estar nos nossos livros de literatura, devia cair no vestibular… Mas ela morreu anônima. Os gringos deram mais apoio a ela que os brasileiros. Fizeram até documentários com ela.

Vale muito à pena procurar saber mais sobre esta autora, que foi uma prévia do que hoje é a Literatura Marginal Brasileira.

Enquanto em pleno século XXI pipocam o que eu chamo de “favelólogos” (mestres e doutores na “Favelologia”) nas universidades brasileiras, com gente escrevendo sobre favela sem nunca ter pisado numa, fico reanimada em saber que nosso povo resiste e conta sua história com as próprias palavras há mais de 50 anos.

Uma resposta para “Quarto de despejo (Diário de uma Favelada)”

  1. Eliv Dantas disse

    Realmente, precisamos dar valor a nossa literatura marginal, mas ela incomoda, por isso não vai para frente.
    Estou trabalhando com meus alunos Sobre Habitação popular: cortiços no século XIX e favelas no século XX e XXI, e como leitura recomendada o livro Díario de uma favelada de Carolina de Jesus.

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